segunda-feira, 9 de julho de 2012

Qualquer relação com "música" é pura coincidência...


Justin Bieber é uma máquina de fazer dinheiro, ponto. É capa da revista Forbes e um dos maiores nomes no que diz respeito a investimento privado em tecnologia. Conseguiu tudo isto através da música? Não, através das redes sociais - This cultural phenomenon, born of social media, took a modicum of fame and tossed it into the digital echo chamber.
O artigo da Forbes é esclarecedor e vale a pena ler para entender como é que um fenómeno da música tem tão pouco a ver com música, e aos 19 anos sabe mais de negócios que a maioria de nós aos 40... A música há muito tempo que deixou de ser "só" música e a indústria tem sofrido mudanças brutais, fazendo muitas vezes com que a música seja o pormenor quase irrelevante. A questão aqui é como a intervenção financeira destes jovens artistas muda a sua posição no mundo e o seu poder, já não apenas como "opinion makers" importantes, mas como forças de mobilização de massas acima do Presidente dos EUA, por exemplo! Mobilização de massas para... consumir, bem visto! Mas já não se fala só de consumir música, mas de todos os produtos onde os seus ídolos investem - é uma manipulação muito mais poderosa...
Aparece este ano como o nº3 das celebridades mais influentes no mundo, de acordo com a famosa listagem da Forbes, ao lado de uma esmagadora maioria de cantores, ou será melhor dizer, celebridades do mundo da música...




domingo, 24 de junho de 2012

Festival sem música - the all in one package!

Viver a 300 metros de um dos maiores festivais da Europa, faz-nos tomar consciência de algumas aspectos que não vemos quando somos "clientes". Em frente ao MACBA estava um dos espaços do Sonar, em plena Praça dels Angels, limitado por tapumes de madeira, ou seja, podia-se ouvir tudo o que se passava para lá das "paredes" do Festival, mesmo sem pagar bilhete. Neste espaço criou-se uma dinâmica curiosa: clientes e não clientes, juntavam-se por ali, a beber cerveja, conversar e ouvir a música a níveis bem mais simpáticos do que dentro do próprio recinto. E ali mesmo na rua, estava tudo - a experiência Sonar - música, copos, gente de todo o mundo... the package! E se facto as pessoas vêm cada vez mais aos festivais pela parte social, pelo convívio, para conhecer gente, fazer amigos, fazer negócios e ter "experiências inolvidáveis", porque é que não se pensa nesse público também? Porque não se faz uma entrada social para os Festivais, sem direito a assistir aos espectáculos, mas a tudo mais? Ou melhor ainda, uma tenda ou recinto para convívio onde possam entrar só os detentores do "bilhete social".  A música seria o ponto de partida para tudo o mais mas não era o protagonista, o protagonista seriam as pessoas, as conversas, o contacto pessoal. ..

terça-feira, 12 de junho de 2012

é a economia, estúpido!


O texto explica-se por si mesmo. É também por isto que se deve continuar a fomentar o investimento público e a profissionalização na cultura:

Resolución de 24 de mayo de 2012, de la Secretaría de Estado de Cultura, por la que se convocan las becas FormARTE de formación y especialización en materias de la competencia de las instituciones culturales dependientes del Ministerio de Educación, Cultura y Deporte, correspondientes al curso 2012/2013.

La creciente importancia de la cultura como elemento dinamizador de la economía y el empleo, se pone de relieve en nuestro país acudiendo a la Cuenta Satélite de la Cultura cuyos datos revelan que el sector cultural y creativo, en las actividades vinculadas con la propiedad intelectual, aporta el 3,9% de nuestro PIB. Con respecto al empleo cultural se estima que genera unos 750.000 puestos de trabajo. El importante futuro que tiene este sector se reconoce en la Estrategia Europa 2020 de la UE que considera la política industrial y de innovación como los núcleos principales sobre los que pivota el cambio hacia la sociedad del conocimiento.

normativas e mais explicações aqui

quinta-feira, 7 de junho de 2012

a noite sem críse


Felizmente continua a haver uma noite em Lisboa onde a cultura é grátis, de grande qualidade e está na rua! As Festas de Lisboa continuam a ser uma iniciativa maravilhosa da Câmara Municipal de Lisboa / EGEAC e a abertura regra-geral é para nos deixar maravilhados e esquecer a vida quotidiana. Este ano não foi excepção, com os Titanick a envolver-nos na sua corrida de máquinas loucas e fazer uma enorme multidão sorridente esquecer, nem que seja por duas horas, as tristezas da crise. E quanto maior é a crise mais importante é este papel da cultura, de unir as pessoas, de lhes fazer viajar um bocadinho com os pés bem assentes na sua cidade, e de crescer para além das suas limitações.





quarta-feira, 16 de maio de 2012

uma ópera é uma ópera, é um museu


No passado domingo, dia 13 comemorou-se o dia europeu da ópera. O Gran Teatro de Liceu, conceituadíssimo estabelecimento cultural da cidade de Barcelona (que infelizmente tem sido notícia nos últimos meses pelos cortes, despedimentos e outras manifestações da cultura-politico-dependente), associado por quase todos às classes altas, ao luxo, à "alta cultura", fez uma Jornada de Portas Abertas. Das 10H às 18H podia-se entrar, passear pelos corredores, pelas salas destinadas aos "amigos do Liceu", pela sala de espectáculos e havia pontualmente actuações curtas e transmissão de espectáculos em ecrãs. E assim, só por abrir as suas portas, de um dia ao outro, a ópera do Liceu passou a museu. As pessoas estavam a visitar este espaço como se se tratasse de um museu! Não sei se aquelas pessoas não vão habitualmente à ópera porque ainda não tomaram conhecimento que há bilhetes a partir de 10€, ou seja, que é mais barato ir à ópera que a alguns cinemas desta cidade (principalmente se se comprar pipocas!), ou porque não têm tempo, ou porque acham que não vão gostar, ou porque acham que não se vão sentir bem... não sei! Mas o que sei é que há muita gente que quer visitar o Teatro de Liceu. Então, em que é que ficamos? Querem mas não sabem como... querem mas só se for grátis (e isto já estamos cansados de saber que não é verdade)... querem mas... só se for um museu?



O que é que levou as pessoas a entrar no Liceu nesse dia, a ter curiosidade, a tirar fotos, a passear-se por ali como se tivessem finalmente ganho acesso a um mundo inacessível? 
O teatro aproveitou bastante bem a presença "estranha", fazendo uma recolha de emails com a desculpa de um concurso de oferta de bilhetes, cujo o único critério para ser elegível era querer receber informações das suas actividades. As bilheteiras estavam abertas (a um domingo!), a saída da visita era pela loja, tudo bem pensado, bem feito, com simpatia e tudo! Para mim, o que faltou para passar de uma visita interessante a uma visita "UAU!" foi o acesso aos bastidores e camarins... quem sabe, pode ser que para o ano o aceso seja alargado!


Se estas pessoas vão voltar num dia de espectáculo não sei mas parece-me maravilhoso que nós que pensamos tantas vezes nos problemas gerados pela falta de público e que passamos horas a discutir tácticas de captação de novos públicos e artimanhas inteligentes para fazer as pessoas entrar nas estruturas culturais, nos esquecemos às vezes que é tão simples como... abrir as portas.

sábado, 5 de maio de 2012

É a tradição!


No dia 23 de Abril comemora-se na Catalunha o Sant Jordi. A lenda diz que S. Jorge matou um dragão para salvar uma princesa e desde ai se comemora uma espécie de dia dos namorados que se manifesta desde o séc.XV pela oferta de rosas encarnadas às senhoras (simbolizando o sangue do dragão), e desde 1616 de livros. Para a parte dos livros não há muita explicação religiosa nem fantasiosa, coincidência ou não, este é também o dia internacional do livro (estabelecido por convenência nas datas que aproximavam as mortes de Cervantes e Shakespeare...), e está montada uma tradição! Mas a tradicção tem vindo a mudar e nesta altura o dia de S. Jordi está para a indústria do livro como o Dia de Acção de Graças está para os criadores de perú: um dia único ao ano com vendas absolutamente brutais. As vendas de livros no dia 23 de Abril são equivalentes às vendas registadas no Natal, em todo o período de vendas do Natal.

A tradição de oferecer livros que incicialmente era "devida" às senhoras (em troca das rosas). Adaptou-se aos tempos e os homens também oferecem livros e toda a gente oferece a toda a gente, não é unicamente uma festa de namorados, é uma festa popular, para todos. É a tradição, dizem!
Pelas principais artérias da cidade, aqui em Barcelona, montam-se mesas improvisadas e vendem-se livros, é simples, não há estruturas dispendiosas, técnicos informados, expositores sofisticados... é uma festa de rua, é a tradição! Mas também se montam palcos para leituras, espectáculos e outras participações feitas na sua maioria pelos habitantes de cada bairro, como dita a tradição!
Não é feriado mas há tolerância no emprego para sair umas horas e comprar livros. É a tradição!
As livrarias também montam as suas bancas na rua onde os autores têm o seu dia de super-star e esperam as centenas de pessoas que fazem filas durante horas (não é um exagero) para ter os seus livros autografados. E porquê na rua? Primeiro porque as livrarias estão cheias de clientes e depois porque... é a tradição!

Há cenários de televisão que emitam a série "Guerra dos Tronos" e a fila para poder sentar-se no trono e tirar uma foto tem mais de 100 metros... e mesmo ao lado, claro, podem-se comprar os livros em super-edições. É a tradição a mudar! Também passam autocarros com equipas de televisão e há estúdios de rádio montados em plenas Ramblas, os media nunca ficam de fora de uma boa tradição!

Mas como é que esta tradição que se estendeu ao teatro, ao cinema e todo o género de lojas que fazem as promoções de S. Jordi, gerando um dia impar para o comércio e para a cultura, se mantém ao longo de tanto tempo e sem sinais de grandes mudanças? Não há tradição que resista por si só, não a esta escala! Não sem cooperação e vontade política. Cada bairro de barcelona monta a sua própria festa de S. Jordi mantendo a tradição e acção social do bairro vivos e de boa saúde, cada centro cívico e cada museu tem uma programação especifica para o dia na sua esmagadora maioria de acesso livre, cada escola trata o tema, cada editora faz edições especiais e edita novas obras para o evento, cada canal de televisão faz reportagens e programas especiais, ou seja, cada sector da sociedade interfere de alguma maneira mantendo e adapatando a tradição.

Desde que cheguei a Barcelona, em Setembro, tinham-me dito muitas vezes "tens de estar cá no dia de S. Jordi!", e tinham razão, é um dia impar na vida cultural desta cidade, é um exemplo brilhante do que uma boa politica cultural pode gerar e para além do mais é super divertido! Mas desde o principio de Abril, pelas paragens de autocarro, pelos cafés e espaços públicos começavam a ser distribuidos programas, apareciam cartazes... É a tradição!

terça-feira, 10 de abril de 2012

ai weiwei - a arte enquanto politica ou a experiência como espelho da acção


A primeira vez que ouvi falar de Ai Weiwei foi há uma ano atrás, quando ele desapareceu. Veio-se a saber que o desaparecimento tinha sido uma detenção feita pelo governo chinês com motivos pouco claros: segundo o próprio governo, o artista foi detido por suspeita de fraude fiscal e actos de pornografia (por ter posado nu para uma fotografia com quatro mulheres), segundo o desenrolar dos acontecimentos, é mais provável que a detenção tenha sido feita por motivos políticos. Ai Weiwei é um artista transversal que se preocupa com o seu trabalho, unicamente com o seu trabalho e o impacto social que ele pode ter e não com tudo o demais que representa "ser um artista". Os seus trabalhos têm o poder maravilhoso dos espectáculos ao vivo - são experiências.
         
Com uma história de vida absolutamente marcada pelo regime comunista, Ai Weiwei viveu quase 20 em exilio já que o seu pai, poeta, tinha sido banido por escrever um conto considerado anti-regime. Só com a morte de Mao Tse Tung, em 1976, é que a sua familia pôde voltar a Pequim. Weiwei foi para Nova Iorque onde experienciou a liberdade de expressão civil e artística, antes de voltar por causa do seu pai à sua cidade natal e aí dar início a uma carreira artística explicitamente política. Trabalha sobre conceitos de tradição permitindo-nos uma reflexão muito mais abrangente do que o olhar passivo de um espectador. Com a internet, tem vindo a criar movimentos civícos, artísticos e políticos - a criatividade é uma ferramenta para mudar a sociedade,  questiona a tradição para olhar em frente, destrói símbolos para poder reconstruir melhor, no sentido de ver de maneira diferente o significado para além do símbolo.



Os seus trabalhos com mobília da dinastia Ming (que são destruídos e reconstruídos na perfeição, com as mesmas técnicas usadas desde o séc. XIV) ou porcelana imperial, são exemplos claros: a função, o símbolo e a mestria de tradição artesanal utilizadas de forma a questionar a sua própria definição e canons. O projecto das sementes de girassol, apresentado em 2011 na Tate Modern de Londres é provavelmente o exemplo mais conhecido e dos maiores projectos levados a cabo: 100 milhões de sementes de porcelana feita por 16.000 artesãos durante cerca de 2 anos e meio.


O ano passado, o desaparecimento / detenção de Ai Weiwei provocou uma reacção mundial das instituições de arte comtemporânea. Por todo o lado se reinvidicava a sua libertação num movimento único em prol da liberdade de expressão. Sem qualquer apelo politico ou organização internacional, diferentes países com diferentes visões, se uniam num movimento claramente politico. Ai Weiwei diz que esse é o poder da comunicação de da internet - unir as pessoas, mudar o mundo.
A semana passada, para comemorar o aniversário da sua detenção, o artista abriu um canal no seu site (que foi em poucas horas "apagado" pelas autoridades) onde se podia ver o que se passava dentro de cada divisão da sua casa. Uma mensagem ao governo chinês que o mantém sob observação apertada: o uso da vigilância e da tecnologia não tem dono e pode ser utilizada de inúmeras maneiras. Ali, na China controladora, este homem conseguiu com um computador e um acesso muito limitado à internet criar uma revolução cultural, criar movimentos cívicos, mover massas, empregar pessoas, mudar a maneira como pensamos o mundo. Faz-nos pensar nas possibilidades do nosso "mundo-livre", não faz?


Na galeria Magasin3, em Estocolmo está agora patente uma exposição deste senhor, para quem não pode dar um saltinho até lá, pode sempre usar o meio favorito de Ai Weiwei e ver quase tudo aqui. E já agora, aproveitem para ver este documentário da BBC, são 50 minutos bem empregues.